O que fica quando o peso vai embora?

O que fica quando o peso vai embora?

Por muito tempo, emagrecer foi tratado como uma questão simples: diminuir o número na balança. Quanto menos quilos, melhor. Mas a ciência do emagrecimento começou a fazer uma pergunta mais importante: o que exatamente estamos perdendo quando o peso diminui?

Essa discussão ganhou ainda mais relevância com a popularização dos medicamentos que atuam nas vias do GLP-1. Essas terapias transformaram o tratamento da obesidade e podem produzir perdas de peso significativas. Mas, quando o corpo emagrece, ele não perde apenas gordura. A massa magra também pode diminuir, e entender essa diferença é fundamental para pensar em um emagrecimento que seja realmente saudável. 

Isso não significa que os análogos de GLP-1 simplesmente “fazem perder músculo”. Na realidade, os estudos mostram que a maior parte da perda de peso tende a vir do tecido adiposo, enquanto uma parcela corresponde à massa magra. Essa proporção varia entre estudos e medicamentos, e ainda não está completamente claro quanto dessas mudanças representa perda de músculo funcional. E é justamente aí que a conversa fica interessante.

Massa muscular não é apenas uma questão estética. O músculo é um dos principais tecidos responsáveis pela nossa capacidade de movimento, força e autonomia. É ele que permite subir escadas, levantar da cadeira, carregar uma mala, brincar com os filhos e continuar fazendo as coisas que fazem parte da vida. Com o envelhecimento, preservar essa capacidade se torna ainda mais importante. Por isso, talvez o objetivo não devesse ser simplesmente perder peso, mas aprender a perder aquilo que queremos perder enquanto preservamos aquilo que queremos manter.

O principal estímulo para isso é bastante conhecido: treinamento de força. O exercício de resistência sinaliza ao organismo que aquele músculo continua sendo necessário. Durante o emagrecimento, quando existe menor disponibilidade energética, esse estímulo se torna especialmente importante para ajudar a preservar a massa e a função muscular. Estudos de intervenção mostram que o treinamento de força melhora força e composição corporal, inclusive em pessoas mais velhas.

A alimentação também entra nessa equação. Proteínas fornecem aminoácidos necessários para a manutenção e reparação dos tecidos musculares, e garantir uma ingestão adequada passa a ser ainda mais relevante quando existe uma redução importante na ingestão calórica.

E é nesse cenário que a creatina começa a fazer parte da conversa. Conhecida há décadas por seu uso no esporte, a creatina participa do sistema de fosfocreatina, que ajuda a regenerar ATP e fornecer energia rapidamente para a contração muscular. Quando associada ao treinamento de força, sua suplementação pode favorecer ganhos de força e massa magra. Esse efeito não é exclusivo de atletas: estudos em adultos mais velhos também encontraram benefícios quando a creatina foi combinada ao treinamento resistido. 

Isso torna a creatina uma possibilidade interessante dentro de uma estratégia de preservação muscular durante o emagrecimento. Mas existe uma diferença importante entre uma hipótese promissora e uma evidência comprovada: ainda não há evidência clínica suficiente para afirmar que a creatina, especificamente, previna a perda muscular causada por medicamentos que atuam no GLP-1.

O que já sabemos é que creatina e treinamento de força têm uma base científica consistente para melhorar força e massa magra em diferentes populações. O que ainda está sendo investigado é como essas estratégias podem ser utilizadas da melhor maneira no contexto específico do tratamento da obesidade com os medicamentos.

E talvez essa seja a mudança mais interessante na forma de pensar sobre emagrecimento.

O sucesso não deveria ser medido apenas pelo quanto a balança diminuiu, mas também pelo que aconteceu com a composição corporal, a força e a capacidade funcional ao longo do caminho.

No fim, emagrecer bem talvez seja menos sobre ocupar o menor espaço possível na balança e mais sobre construir um corpo capaz de sustentar a vida que queremos viver agora e daqui a muitos anos.

Referências:

1.KARAKASIS, Paschalis et al. Effect of glucagon-like peptide-1 receptor agonists and co-agonists on body composition: systematic review and network meta-analysis. Metabolism, v. 162, 156113, 2025.

2.WILDING, John P. H. et al. Once-weekly semaglutide in adults with overweight or obesity. The New England Journal of Medicine, v. 384, n. 11, p. 989–1002, 2021.

3.MOCcIARO, Gabriele; CAPODICI, Angelo; DE AMICIS, Ramona. GLP-1 receptor agonists induce loss of lean mass: so does caloric restriction. BMJ Nutrition, Prevention & Health, v. 8, n. 1, e001206, 2025.

4.MEMEL, Zoe et al. Impact of GLP-1 receptor agonist therapy in patients high risk for sarcopenia. Current Nutrition Reports, 2025.

5.CHURCHWARD-VENNE, Tyler A. et al. Creatine supplementation during resistance training in older adults—a meta-analysis. Medicine & Science in Sports & Exercise, v. 47, n. 6, p. 1191–1200, 2015.

6.DEVRIES, Michaela C.; PHILLIPS, Stuart M. Creatine supplementation during resistance training in older adults. Medicine & Science in Sports & Exercise, 2014.

7.WANG, Ziyu et al. Effects of creatine supplementation and resistance training on muscle strength gains in adults <50 years of age: a systematic review and meta-analysis. Nutrients, v. 16, n. 21, 3665, 2024.

8.CRUZ-JENTOFT, Alfonso J. et al. Sarcopenia: revised European consensus on definition and diagnosis. Age and Ageing, v. 48, n. 1, p. 16–31, 2019.

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